Da arte de ver pelo miradouro.

Imagem 1. Digitalização de positivo fotográfico, sem título, sem autoria, sem data [c. 1940] APIF-NR-f.1809 (cota provisória)

Os historiadores da arquitectura têm por hábito reconhecer nas formas expressão dos tempos e dos homens gestos dos que as constroem. E fazem bem. Contudo, sob pena de quererem categorizar amiúde esquecem os pormenores. Aproximam-se, vêm ao perto, recortam, criam grelhas e árvores de conceitos e ignoram coisas ao redor que ficam na sombra ou fora do seu campo visual.

Se o Estado Novo se reconhece pelas grandes arquitecturas, megalómanas e lhanas como todas as obras ditatoriais, também fala pelas coisas pequenas. No caso português, diria que fala mais pelas coisas pequenas, do que pelas grandes.

Salazar, o grande obreiro do regime saído de 1933 era de Santa Comba Dão e pensava como um beirão – daqueles cujos limites visuais nunca ultrapassavam na vida mais do que o circuito da horta ou, no máximo o que do campanário da paroquial se conseguia ver: montes e serras, atrás de serras e montes.

Os miradouros constituem uma linguagem estado-novista associada à vasta obra rodoviária, de cujo plano emerge o nome de Duarte Pacheco. Espécie de Marquês de Pombal à la carte da rodovia, Duarte Pacheco deixou viadutos, pontes e proto-autoestradas a um ritmo de construção que só seria superado, talvez, pelo tempo cavaquista de governação.

Na beira das estradas que serpenteavam pelo país, estavam os miradouros, sucessores dos mirantes. Meias laranjas, pérgolas, varandas, balcões – formas recuperadas de um romantismo tardio – encheram as beiras de estradas de Norte a Sul.

Imagem 2. Capa do 5.º fascículo da obra «Estradas de Portugal», editada pela Livraria Lello, em 1932.

A primeira obra que conheço mostrar o primevo país turístico através dos miradouros é a «Estradas de Portugal», editada pela Livraria Lello, do Porto em 1932. As fotografias são da Casa Beleza, e exibem-se ao modo de fotogramas de um filme que preenche as páginas no sentido vertical, como desenrolando-se ao longo do percurso indicado num mapa colocado na mesa posição na página oposta. Os fotógrafos paravam nas bermas das estradas, algumas em construção juntamente com os seus miradouros e daí captavam as imagens que ajudaram a construir a ideia turística de Portugal: uma paisagem pitoresca e rural.

A fotografia vernacular dos anos 1940 a 1970 mostra-nos também um país visto dos mirantes ou miradouros (imagem 1). Um país visto através de uma moldura – a forma que o regime encontrou para engradar a visão dos seus habitantes e turistas: «é aqui que deves parar o teu carro e ver a paisagem, aquela paisagem e só aquela».

Curiosamente, na minha terra, a moda dos miradouros ainda persiste, talvez porque o espírito do Estado Novo prevaleça como forma de entender e ver. Hoje chamam-se observatórios.

Publicado por Nuno Resende

Professor e historiador.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Create your website with WordPress.com
Iniciar
%d bloggers like this: